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[Resenha/Crítica]: O Filme da Minha Vida

Mais pela direção-fotografia, menos pela história.

Selton Mello conhece bem a vida de artista, desde muito criança começou a fazer novelas na tv, naquela época já emocionava os corações mais aflitos, era daquelas crianças meigas, olhos aflitos e voz mansa, parecia estar sofrendo 24 horas por dia. Bem depois, se interessou por cinema, chamando atenção com Lavoura Arcaica, O Cheiro do Ralo e Meu Nome Não é Johnny. Entre tantos filmes, percebeu que tinha o bom humor nas veias, e se jogou nessa empreitada, fazendo rir com O Auto da Compadecida, A Mulher Invisível, Lisbela e o Prisioneiro, Reflexões de Um Liquidificador e O Palhaço.

Mas só interpretar era pouco para Selton, em 2008 dirigiu o seu primeiro filme, Feliz Natal, lidando com uma família disfuncional, cheia de dores do passado, reverberando no presente. Fazendo um palhaço, melancólico, que buscava a sua essência e tentava entender qual caminho deveria seguir, em 2011, dirigiu e estrelou O Palhaço, conseguindo ter sucesso de público e crítica, e agora volta com O Filme da Minha Vida, uma história no ano de 1963, em que o jovem Tony Terranova, um professor de francês e apaixonado por cinema, vive com sua mãe, depois que seu pai francês foi embora, pra nunca mais voltar.

Os protagonistas dos filmes de Selton Mello, até agora, são homens melancólicos, que buscam um maior entendimento de suas vidas, e Toni Terranova, de O Filme da Minha Vida, vem por esse mesmo viés. Toni é um garoto, quase homem, que se sente como o provedor de sua família, ele cuida de sua mãe como se fosse o chefe da família, mas existe a tristeza em seu ser, pela falta de seu pai, e sempre lembra o quanto eram felizes. Por que ele se foi? Teria deixado de amá-los? Voltou pra França? Essas perguntas o atormentam. Ele precisa do seu pai novamente.

O diretor Selton Mello trabalha com um lado bem dramático, mas nunca deixa de lado o humor, a ironia, o sarcasmo, aqui o alívio cômico aparece nos alunos de Tony, que estão com os hormônios em ebulição e precisam, de todo modo, conhecer mulher, querem perder a virgindade e, para isso, necessitam da ajuda do professor camarada, na primeira vez é engraçado, na segunda vez perde-se a novidade, e a graça se torna repetitiva. Bruna Linzmeyer, com seus grandes olhos azuis, é uma atriz de rara beleza e sabe do poder que suas pupilas têm, silenciosa, traz um quê de mistério e sedução para a sua Luna, e tenta fazer uma dobradinha com Bia Arantes, sua irmã Luna, que não diz a que veio, ou melhor, diz sim, mas no final com desenrolar risível, bem problemático.

Selton volta a atuar, em um papel pequeno, Paco é amigo da família de Tony. Selton, com um tipo de voz e interpretação peculiar – voz cantada – traz um Paco bem diferente do que já fez, aqui, há contenção nos gestos, sua voz está empostada e mais grave, e seus diálogos, até com os porcos, tentam “roubar” a cena, de modo um tanto caricato, não soa natural. Quem consegue sobressair melhor é Johnny Massaro, que tem o filme todo para si. Massaro, com cara de ator francês – parece bastante com Louis Garrel, principalmente aqui, que tem toda a doçura, a melancolia e o “tom poético” que o personagem exige. Ele fala como se tivesse declamando um poema. Os olhos do seu Tony, apaixonado por cinema, estão descobrindo o tanto que a vida pode ser encantadora e surrealista, que o diga a cena da coreografia de dança das garotas, uma das mais bonitas do filme. Johnny Massaro encanta em todos os aspectos.

O francês Vincent Cassel, com poucas cenas, como o pai de Tony, é presença marcante, sendo uma das chaves para o desenlace da história, risível também. Martha Nowill também dá as caras, em pequena participação, mas ela sempre é notada, e ainda mais como alívio cômico. Selton, em seus filmes, tal qual Quentin Tarantino, sempre traz de volta atores que estão sumidos do cinema, foi assim com Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Jorge Loredo, Ferrugem e Moacyr Franco. A bola da vez é Rolando Boldrin, o eterno apresentador do programa de tv Som Brasil, que desde 1978 não atuava. Boldrin é o maquinista do trem da cidade, e suas poucas aparições são envoltas de simbologias e olhares, é ele quem leva e traz vidas para o “novo”. É o abrir dos olhos. Boldrin, o enigma.

Um dos maiores destaques do filme é a esplêndida fotografia de Walter Carvalho, suas imagens são de saltar aos olhos, seja numa chuva, numa viagem de trem ou numa dança das garotas, tudo é lindo de se ver, casando perfeitamente com o olhar de Selton Mello. Nesse quesito, o cinema de Selton Mello dá uma guinada para trazer a seu filme um tom mais comercial, sendo que nunca consegue chegar à grandiosidade de seus dois primeiros, ele tenta fazer o mais bonito possível, mas, muitas vezes, o desenvolvimento da história não é o suficiente para o bom diretor, o enredo não causa grande interesse, ainda bem que ali existe um protagonista interessante, Massaro é o centro de tudo, ele é grande.

Desde o seu primeiro filme, Selton é sucinto e não precisa de grandes explicações, e isso só faz bem para o cinema. O Filme da Minha Vida, que é baseado no livro do chileno Antonio Skármeta, é o oposto disso, com história simplista – parecendo “uma novelinha, um tanto bobinha” – roteiro dos mais fracos, funcionando como o avesso de Selton, tanto é que o personagem do maquinista não existia no livro, é uma criação do diretor, sendo uma das melhores coisas do filme. Cadê os silêncios do Selton Mello? Uma pena. Por tudo isso, O Filme da Minha Vida não é o filme da minha vida, ele tem o seu pequeno valor, mas poderia ter sido muito mais, fico com os dois primeiros.

Nota do CD:

[Rating: 2.5/5]

Sinopse:Toni é um garoto, quase homem, que se sente como o provedor de sua família, ele cuida de sua mãe como se fosse o chefe da família, mas existe a tristeza em seu ser, pela falta de seu pai, e sempre lembra o quanto eram felizes. Por que ele se foi? Teria deixado de amá-los? Voltou pra França? Essas perguntas o atormentam. Ele precisa do seu pai novamente.

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Drama
Direção: Selton Mello
Roteiro: Marcelo Vindicato, Selton Mello
Elenco: Antonio Skármeta, Bia Arantes, Bruna Linzmeyer, Erika Januza, João Prates, Johnny Massaro, Martha Nowill, Ondina Clais Castilho, Rolando Boldrin, Selton Mello, Vincent Cassel
Produção: Vania Catani
Fotografia: Walter Carvalho
Montador: Marcio Hashimoto
Duração: 117 min.
Ano: 2017
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 03/08/2017 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes
Estúdio: Bananeira Filmes / Globo Filmes
Classificação: 14 anos

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Categoria: Detalhando, Em Cartaz, Nacional, Resenhas de Filmes, Vavá Pereira

Sobre o autor ()

Um publicitário que ama os filmes desde que nasceu. De Closer a O Senhor dos Anéis, de Uma Linda Mulher a O Poderoso Chefão. Sim, eu amo Julia Roberts! Gosto de quem gosta dos filmes que gosto, mas gosto mais ainda de quem não gosta, pois uma boa discussão não faz mal a ninguém.

Comentários (1)

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  1. Alexandre Oliveira disse:

    Me pareceu um pouco confusa a personagem de Selton Mello: seria ele um fanfarrão ou apaixonado pela mulher abandonada?

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