[Resenha/Crítica]: CORRA

Nunca tive tanto medo dos brancos.

Um jovem casal, Chris e Rose, apaixonados, estão indo passar o fim de semana na casa dos pais de Rose. Chris não os conhece. Será um final de semana para conhecimento de território. Apenas um detalhe, a moça é branca e o rapaz é negro, mas são os pequenos detalhes que fazem a diferença. Um típico casal que já queremos torcer por sua felicidade, queremos vê-los juntos. Chris pergunta a Rose se ela avisou aos pais que ele é negro. Avisar? Sim, isso mesmo. A partir daí, pode haver algum entroncamento de situações, algo estranho, mas isso ainda acontece.

Já vimos milhares de vezes essa história, em que o namorado vai conhecer a família da namorada, causando constrangimentos e gargalhadas, mas em Corra o buraco é mais embaixo. Têm-se situações engraçadas, porém o seu centro é bem dramático. Logo, quando chega à casa, Chris é muito bem recebido por Dean e Missy, os simpáticos pais de Rose e eleitores de Obama, e fazem questão de deixá-lo à vontade. Ele também conhece os empregados da casa, duas pessoas “negras” e, aparentemente, felizes. Chris está sempre em contato com seu engraçado e sarcástico amigo, Rod, que avisa para ele não ir à casa de pessoas “brancas”. E assim começa a saga de Chris, ele não imaginava o que estava por vir. Contar mais sobre a história poderia atrapalhar o item surpresa.

Corra é um dos filmes inter-raciais mais envolventes já feitos e não só pela convocação de certa discussão sobre o assunto, mas, principalmente, por misturar os climas. O suspense está presente naquele ambiente, mas o sarcasmo dá as caras a todo o momento, juntamente com a crítica social, seja nos olhares, seja nos sorrisos ou nos breves comentários de alguns personagens.
Aqui, como em muitos lugares do mundo, o racismo é velado, as pessoas “acreditam” que ele não existe. O negro é bem-vindo, o negro é quase uma peça de museu. É assustador.

O elenco de Corra é bem seguro, com destaque para o novato Daniel Kaluuya (Sicario : Terra de Ninguém), fazendo o inseguro e assustado Chris. Allison Willians faz Rose, a namorada apaixonada de Chris. Allison era uma das estrelas da série da HBO, Girls, e é uma grata surpresa. Catherine Keener (À Procura do Amor) interpreta a silenciosa mãe de Rose, e garante grandes momentos em cena, é uma atriz cheia de nuances. Lil Rey Howery é Rod, o amigo descolado de Chris e é o responsável por toda carga de comédia do filme. E a ótima Betty Gabriel faz a empregada Georgina, com sua presença enigmática e sinistramente apavorante.

O melhor a se fazer é ir para o cinema sem saber nada sobre ele (trailer, crítica, poster), o público só tem a ganhar, pois o diretor Jordan Peele, em seu primeiro filme, não inventa nada de tão absurdo, mas desenha uma história que nos interessa a cada minuto. Notamos o suspense e a estranheza, cada vez mais em crescimento. A sua câmera, com enquadramentos ágeis e inteligentes, faz grande diferença para o entendimento ao que estamos vendo. Jordan Peele tem um ótimo domínio do drama e da comédia, sabe o que quer e entrega cenas memoráveis, cínicas e cheias de pavor, nunca mais me esquecerei da xícara e do tilintar da colherzinha.

Falando em tilintar, um dos maiores acertos de Corra está no seu som. Tudo causa certo arrepio. O tilintar da colher, o barulho do vento, uma porta que se fecha, o freio de um carro, cada efeito sonoro se torna um personagem à parte, por causa disso é importante se ver em um bom cinema, a experiência será inesquecível.


A trilha sonora de Michael Abels, em seu primeiro longa-metragem, é de grande preciosidade e traz o medo e a angústia em suas notas musicais, principalmente pelo som do violino, em partes pontuais, e pela música “negro spiritual” Sikiliza Kwa Wahenga. É coisa de primeira.
Jordan Peele, com boas críticas mundiais por causa de Corra, não renova o fazer cinema, mas conduz tudo com grande maestria, tendo em seu primeiro filme um diferencial que muitos outros não o têm, a perspicácia de contar uma boa história, mesclando o suspense, o riso e uma raça, que se acha superior. Uma grande realização.

O desconforto está instalado. Corra para ver Corra.

Nota do CD:

[Rating: 4.5/5]

Sinopse:A história acompanha um final de semana na vida de Chris (Daniel Kaluuya), um jovem afro-americano que visita a propriedade da família de sua namorada. A princípio, Chris vê o comportamento exageradamente hospitaleiro da família como uma tentativa desajeitada de lidar com a relação inter-racial da filha, mas, no decorrer do final de semana, uma série de descobertas perturbadoras o levam a uma verdade que ele nunca poderia imaginar.

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Terror
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Allison Williams, Ashley LeConte Campbell, Betty Gabriel, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Caren L. Larkey, Catherine Keener, Daniel Kaluuya, Erika Alexander, Geraldine Singer, Ian Casselberry, Jeronimo Spinx, John Wilmot, Julie Ann Doan, Lakeith Stanfield, LilRel Howery, Marcus Henderson, Richard Herd, Rutherford Cravens, Stephen Root, Yasuhiko Oyama
Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick
Fotografia: Toby Oliver
Montador: Gregory Plotkin
Trilha Sonora: Michael Abels
Duração: 104 min.
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estúdio: Blumhouse Productions / QC Entertainment

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Categoria: Detalhando, Em Cartaz, Resenhas de Filmes, Suspense, Terror, Vavá Pereira

Sobre o autor ()

Um publicitário que ama os filmes desde que nasceu. De Closer a O Senhor dos Anéis, de Uma Linda Mulher a O Poderoso Chefão. Sim, eu amo Julia Roberts! Gosto de quem gosta dos filmes que gosto, mas gosto mais ainda de quem não gosta, pois uma boa discussão não faz mal a ninguém.

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