[Resenha/Crítica]: Um Estado de Liberdade

Filmes de contexto histórico que têm como objetivo a representação de heróis/líderes e demais figuras de suma importância dentro do evento retratado costumam apresentar dificuldade quanto ao traçar de suas diversas linhas históricas comportadas dentro do roteiro. Alguns sacrificam os desdobramentos do ocorrido durante tais eventos em prol da profunda abordagem que definem a seus principais personagens; já outros esvaziam os próprios personagens (não seus feitos ou impactos, mas sim o peso narrativo e dramático destes), criando força conjunta à sua galeria de personagens encaixados em seus respectivos eventos. E há também filmes conduzidos de forma automática, que não acrescentam dramaticidade e real relevância nem a um nem a outro – e este é o caso do fraquíssimo Um Estado de Liberdade.

Situado durante os eventos da Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), Um Estado de Liberdade, novo filme do nada mais que medíocre Gary Ross (Jogos Vorazes), o filme compreende eventos que vão de 1862 ao final da década de 1950. Sendo conduzido em sua grande parte por Matthew McConaughey (Interestelar), como o maqueiro Newton “Newt” Knight durante a guerra que torna-se desertor ao regredir à sua terra, para enterrar o sobrinho que fora morto no conflito. Seu retorno não é nada agradável: logo é perseguido por sua deserção, pelo exército Confederado. As práticas deste agrupamento também consistiam nos confiscos de terras e mantimentos dos fazendeiros – o que não de forma rara tornava-se um verdadeiro abuso. Desta forma, o iminente entrave entre as tropas e Newt se consuma, causando a separação do protagonista de sua família.

Durante a separação, Newton é orientado a buscar esconderijo num pântano, local este em que encontra outros desertores e escravos fujões. E é aí, ao início de seu segundo ato, que o filme explora e “desenvolve” (utilização das aspas explicado a seguir) suas principais tramas e proposta do filme.
Após um promissor primeiro ato, que utiliza da pesada carga imagética e da urgência de suas ocorrências para dar intensidade à trama, o filme degringola a partir do momento em que há a tentativa de estabelecer seus comentários de cunho social, mais especificamente o racismo em relação aos escravos negros. Coincidindo com o princípio da criação do Estado Livre de Jones (nomeando o título original), o roteiro de Um Estado de Liberdade, assinado pelo próprio diretor, dispõe de apelos pontuais, entonados pelos discursos de Newt em eventuais conflitos entre negros e brancos da comunidade. Apesar do espaço dado momentaneamente ao personagem mais interessante de todo o filme Moses Washington (a melhor atuação do filme, interpretado pelo ótimo Mahershala Ali, de Moonlight), este acaba perdendo efeito e importância ao longo do filme: se antes tinha um papel fundamental no mote da trama, ao decorrer da narrativa não consegue nem mesmo justificar-se como personagem próprio –  ou até mesmo para cunhar as declarações de seu povo, sendo necessária a presença e tomada de atitude de Newt.O próprio desenvolvimento da comunidade não é tida como importante ao roteiro; em questão de minutos o até então pequeno arranjo de rebeldes torna-se uma verdadeira ameaça aos Confederados. Saques e ataques-surpresa ao exército sulista são algumas das práticas do agrupamento, buscando sua subsistência (já que a pequena ajuda ofertada pela União não é capaz de provê-lo). As relações entre estado – exércitos – habitantes é inexistente, sendo personificadas em Newt e em suas ações (e não assumam isso como mérito do personagem, mas sim como um artifício preguiçoso de seu roteiro).

Sem ter nada acrescentado a Newt, McConaughey incorpora-o com os básicos trejeitos já característicos e apresentados em grande parte de sua filmografia; seu sotaque carregado, o olhar vago e uma nítida supressão de sentimentos. Quando estes tomam sua requerida vazão, o impacto dramático é papalvo, mesmo que o andamento narrativo tome rumo a partir destes.

O filme também trabalha uma trama que ganha pequenos enxertos dentro de sua narrativa principal: um descendente de Newt com Rachel (personagem que ocupa, talvez se somado, uns 5 minutos de tela, interpretada por Gugu Mbatha-Raw), não tendo seu grau de parentesco especificado, é preso e levado a julgamento por seu “sangue 1/8 de descendência negra”, pelas lei de miscigenação do Mississippi do século XX. A inclusão desta (completamente descartável) trama em meio a sua já problemática trama original torna o ritmo e andamento de Um Estado de Liberdade ainda mais desconcertado, sem a existência de uma coesão orgânica entre suas partes. Na tentativa de elevar seu apelo dramático, por meios totalmente questionáveis, o que sobra desta pequena trama são suas pieguices e completa desarmonia com o restante do filme.

Prejudicado por sua montagem atroz (a qual ainda insere grandes referências de datas e fotos de época durante suas passagens históricas), Um Estado de Liberdade ainda possui diversos equívocos técnicos: sua fotografia que pouco valoriza o espaço, a paleta de cores com o predomínio do marrom e cinza – já característica em produções similares – dão ao filme um tom de telefilme do History Channel, tão evidente a precariedade da produção (não somente a termos técnicos, ressalto).

Buscando impulsos dramáticos de forma automática por conta de sua “emocionante história baseada em fatos”, Um Estado de Liberdade carece de elementos básicos quanto uniformidade narrativa e da utilização de eventos dentro desta para causar comoção e empatia ao espectador. O que testemunhamos nas mais de duas horas de filme é uma produção que desconhece seus próprios limites na tentativa de comportar dramas pessoais e universais, por meio duma abordagem que cambaleia entre o documental e o que há de mais formulaico narrativamente, dentro dum drama histórico de guerra – que de suas características principais em nada se beneficia ou torna aproveitável.

Nota do CD:
★☆☆☆☆

Sinopse:

Newton Knight é um ex-soldado do exército confederado que organiza um grupo armado formado por fazendeiros e escravos locais a fim de criar seu próprio estado, nomeado como Estado Livre de Jones, sem a exploração de bens do norte e a escravidão que imperava no sul americano.

Trailer do filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Drama
Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross
Elenco: Christopher Berry, David Jensen, Gary Grubbs, Gugu Mbatha-Raw, Jacob Lofland, Jessica Collins, Joe Chrest, Keri Russell, Kerry Cahill, Lara Grice, Mahershala Ali, Matt Lintz, Matthew McConaughey, Ritchie Montgomery, Sean Bridgers
Produção: Gary Ross, Jon Kilik, Scott Stuber
Fotografia: Benoît Delhomme
Montador: Pamela Martin
Duração: 139 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 17/11/2016 (Brasil)
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: Larger Than Life Productions / Route One Films / Vendian Entertainment
Classificação: 14 anos

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Categoria: Arthur Salles, Detalhando, Drama, Resenhas de Filmes

Sobre o autor ()

Formando em Direito, adentrou no mundo do Cinema ao descobrir O Poderoso Chefão numa antiga locadora. Ainda nutre uma enorme paixão por videogames, futebol (gremista sofredor) e o que mais o tempo (e paciência) permitir. Curitiba/PR.

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