Resenha de seriado: Sherlock – 3a. Temporada

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A queda e o exílio de um homem em seu pleno auge foi o que marcou o final da segunda temporada de “Sherlock” em 2012, série produzida pela BBC, a qual adapta para os dias atuais o famoso personagem homônimo, protagonista duma série de contos policiais do escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle. Dois anos depois, após tanta espera, restou apenas aos produtores explorarem o reerguer de Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch), sua ressurreição como mito e as consequências que seu sumiço causou a sua querida Londres e aos seus ente queridos.

Diante de tantas teorias espalhadas pela internet sobre como Sherlock planejou seu falso suicídio a fim de desaparecer aos olhos do mundo em “The Reichenbach Fall” (episódio final da segunda temporada), como roteirista, Mark Gatiss, um dos responsáveis pela série ao lado de Steven Moffat, prefere arriscar em não entregar uma resposta, e sim várias. Flertando fortemente com a metalinguagem, ao longo do primeiro episódio, nos é mostrado um fã-clube do detetive que organiza reuniões para decifrar as diversas formas possíveis para ele ter realizado o tal ato. Essa relação com os admiradores da série ao redor do mundo é refletida sutilmente neste episódio, com preferência em mostrar como os feitos de Holmes repercutem pela geração atual que tanto aprecia “curtir e compartilhar” quanto os retweets.

Entre as poucas pessoas intimamente ligadas a Sherlock, está John Watson (Martin Freeman), seu sincero e responsável amigo e parceiro nas investigações. Com a ausência do companheiro detetive, Watson procurou seguir em frente com sua vida, noivando com uma mulher que conhecera  e se apaixonara logo após o desaparecimento de seu amigo chamada Mary (Amanda Abbington). Ao descobrir que Sherlock retornou, Watson passa por uma crise de fúria e desilusão, ao saber que foi enganado por quem tanto confiara. De qualquer forma, a dupla deve lidar agora com uma nova dinâmica na sua relação diante do fato que agora a futura esposa de Watson entra na equação.

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Surge então o grande foco desse terceiro ano da série, estabelecendo o trio Sherlock, Watson e Mary logo no início, ao longo da temporada, vemos os vários nuances e desenrolares no relacionamento entre eles. No segundo episódio, há o casamento de John e nele encontramos um Sherlock afetado pela responsabilidade de cuidar do seu amigo, revelando um lado mais sensível e emocional em comparação a sua persona mais calculista e indiferente, mas não menos instável. É satisfatório notar como o trio possui uma química natural, não só por causa da atriz Amanda Abbington ser realmente casada com Martin Freeman, mas também pelo ótimo timing cômico que os três possuem, e como conseguem transitam do drama para a comédia com tranquilidade, principalmente Freeman. Possuindo mais momentos descontraídos que as temporadas passadas, a série consegue usufruir bem do trio nas mais variadas situações.

Enquanto a série demonstra-se feliz em estar mais centrada em desenvolver seus personagens, por outro lado, os casos que Sherlock e Watson investigam acabam ficando praticamente em segundo plano, deixando de movimentar os rumos da série nos dois primeiros episódios dessa temporada, diferente do que acontecia anteriormente. Em busca de trabalhar tanto o quão forte é a relação entre Sherlock e John, procuram tentar relacionar o caso da semana ao que acontece entre os dois de alguma forma, o problema fica na falta de equilíbrio entre as tramas. Com a perda de relevância nos casos investigados, fica apenas a necessidade de apresentar melhor como a mente do detetive funciona, criando situações onde dezenas de raciocínios são permitidos e inúmeras variáveis não faltam. Apesar de soarem como exibicionismos gratuitos sobre o quão brilhante Sherlock pode ser, é fundamental para compreender o grande antagonista da temporada, Charles Augustus Magnussen (Lars Mikkelsen), que dá as caras no final da temporada.

Palácio mental” é um conceito que já havia sido apresentado anteriormente na série, entende-se como um lugar na consciência de Sherlock onde ele se dirige, constantemente, para poder consultar todas as informações que possui guardadas em sua mente, e assim processá-las numa velocidade absurda como um computador orgânico onde lembranças se tornam seus dados. Uma técnica incrível de memorização. É importante relembrar isso com o surgimento de Magnussen, dono duma de uma série de jornais no Reino Unido, um homem que detém os segredos mais ocultos de diversas figuras influentemente poderosas no país, e através da chantagem de informações tornou-se praticamente intocável. Em tempos de Wikileaks e Edward Snowden, sabemos o quão a informação é uma importante ferramenta para se obter poder nos dias de hoje. E dessa forma que o escritor Steven Moffat triunfa neste último episódio, relembrando um pouco o escândalo dos tablóides britânicos que foram acusado de espionagem, explora as relações e os jogos de poder travados pelas mídias através da informação. Observa-se essa tamanha força na capacidade de persuasão que há no olhar aguçado e na língua afiada de Magnussen enquanto destrincha a vida de cada um que encontra, desarmando qualquer investida de contra-ataque apenas com o diálogo, utilizando as próprias falhas das pessoas contra ela mesmas.. Bom falar do trabalho do ator dinarmarquês Lars (irmão de Madds Mikkelsen), que acerta em dar um tom de superioridade ao personagem, ao mesmo tempo repulsivo, mais precisamente quando pressiona as pessoas a agirem da forma que deseja. A única forma de detê-lo seria roubando ou deletando os dados que possui, infelizmente o problema é onde eles estão, este o qual a dica já foi dada neste texto sobre sua localização.

Num jogo de influências, mentiras e informações, Sherlock é forçado a tomar atitudes que vão contra a sua natureza como um homem metódico e calculista, resultado de todo o seu envolvimento com o casal Watson. Lidar com impulsos e emoções é algo complexo para ele e essa temporada trata muito disso. Através dum gatilho emocional, é desencadeadas todas as memórias afetivas e traumáticas que o detetive esconde por debaixo da sua faceta, revelando um pouco mais sobre o que formou o homem que Sherlock se tornou, a consequência disso fica muito bem expressado na performance instável de Cumberbatch.

Não satisfeito com um desfecho dramaticamente intenso, Moffat ainda entrega uma pista para o próximo desafio de Holmes, onde deve enfrentar um antigo adversário, agora renascido como um conceito, um meme. Mesmo com leves osciladas, Sherlock ainda continua sendo um belo exemplo do que há de notável na tevê britânica.

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Nota do CD:
★★★★☆
Nota dos Leitores:
[kkstarratings]

Trailer da terceira temporada:

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