[Resenha/Crítica]: Alien: Covenant

A antologia Alien, desde a estreia de O Oitavo Passageiro, em 1979, sempre soube reinventar-se dentro de si mesma. Híbridas de gêneros, estilos e abordagens, proposta e forma eram entregues adequando-se a todo o corpo de sua série de filmes. Iniciada em 2012 com Prometheus, no entanto, as prequels parecem buscar diferentes caminhos e objetivos das próprias sequências que ocorreram de 1986 a 1997. Mesmo que a tentativa de explorar novos conceitos e maneiras de incorporar questões complexas nos gêneros terror/sci-fi, os dois últimos filmes mais se repetem do que inovam; a necessidade em amarrarem-se ao primeiro filme procura estofo em questões metafísicas, filosóficas e ontológicas. E justamente na tentativa de transcender seus temas primais (horror e sobrevivência, propriamente), tanto o filme de 2012 quanto este, Alien: Covenant, expõem seus maiores defeitos.

Covenant batiza a nave que está em busca de um planeta a fim de ser colonizado por sua tripulação e “carga”: dois mil colonos que se estabelecerão no novo mundo. Enquanto estão em rota ao longíquo planeta, uma carga de energia danifica parte da nave, matando seu capitão (uma aparição surpresa de James Franco) e acordando sua tripulação. Após o período de comoção e reestruturação emocional da equipe e funcional da nave, um planeta remoto surge por meio de uma transmissão-fantasma em seus sensores. Ignorando todo os anos e empenho de planejamento em busca do planeta original, os tripulantes concordam em buscar o planeta mais próximo, uma vez que a transmissão vinda deste é humana em meio a um lugar supostamente inabitado.

Surgem de cara as incoerências do texto, roteirizado por John Logan e Dante Harper. O resgate da série feito pelo diretor Ridley Scott (também do original de 1979) propunha estabelecer as prequels como uma base mas não necessariamente dependentes dos títulos anteriores. Se no último longa a apropriação do mito de Prometeu ocorria como dispositivo a fim de engendrar seus próprios conceitos dentro da trama, Alien: Covenant utiliza-se dos textos de dois Shelley (Percy e Mary, marido e mulher) para estabelecer uma ponte causal a O Oitavo Passageiro e que pouco oferta ao terror e retoma Prometheus.

A tripulação, composta por mais de uma dezena de integrantes (os quais a maioria são casados/namorados entre si), possui uma abordagem muito mais tática e militar do que a técnica e científica de Prometheus. Nos instantes iniciais da aterrisagem no planeta desconhecido, o enfoque proposto é claramente das possíveis dificuldades da equipe em ambiente hostil. E isto muito remete a Predador (1987) – ao menos antes do filme adentrar numa espiral de equívocos que parecem sem fim.

Se as incapacidades da equipe tripulante no longa anterior causavam raiva e desapontamento no público, em Alien: Covenant os mesmos sentimentos esgotam-se diante da série de imbecilidades cometidas pela tripulação. Desde desprover-se de qualquer proteção em território novo (e hostil!) até tocar e aproximar-se das criaturas experimentais conduzidas por determinado personagem (o próprio já havia, inclusive, revelado seus planos). Tudo funciona de forma a convir aonde o filme quer chegar; sua premissa baseia-se nisso.

E não para menos, o filme insere elementos pontuais na tentativa de abertura ou fechamento de arcos dramáticos, para com seus personagens ou nas próprias situações da narrativa. A tripulante Daniels (vivida por Katherine Waterston, no papel cativo do filme à figura feminina que retém o protagonismo) perde o marido (também capitão inicial da equipe) durante os eventos iniciais do filme; em momento algum o peso disto ressoa de forma verossímil entre os personagens e a forma como se relacionam – nada além do que as citações de uma “cabana à beira do lago” são expressas. O subsequente capitão, Chris Oram (Billy Crudup, que se dá bem em momentos de pequenos gestos), que não vê-se como uma figura que inspire confiança e respeito aos demais – muito por conta de sua “fé”; novamente, em vez de aprofundar essas inquietações para desenvolver o personagem, o roteiro proporciona péssimas e inoportunas sacadas. O dispositivo “tenha fé” de Oram em muito assemelha-se ao “escolhi acreditar” da Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) de Prometheus, com pequena aparição em Covenant.

O restante da tripulação humana não esboça quaisquer sentimentos que não reações estúpidas às ocorrências da trama. Personalidade individual é algo que passa longe de seus membros – o máximo que o filme se dá o trabalho de fazer é caracterizar o personagem de Danny McBride, Tennessee, com um chapéu de caubói. No entanto, se expressões e personalidades fazem falta aos personagens (novamente) humanos, estas sobram para David e Walter, os androides vividos por Michael Fassbender (o primeiro aparece também no longa anterior). Capazes de ignorarem suas próprias diretrizes de funcionamento, os autômatos recaem sobre conceitos de criação, consciência, responsabilidade e evolução, tomando os humanos, os xenomorfos e a si mesmos como objetos para seus discursos, conferindo tragicidade em suas ações como as que poderiam ocorrer a um herói da mitologia grega – assemelhando-se até mesmo com os personagens e discussões de Blade Runner (1982), do próprio Scott.

Por fim, a criatura que dá nome a toda série: o alien. Uma pena o único rastro de personalidade desta encontre-se na explicação de sua formação (um alento narrativo em meio a tantos infortúnios). O conceito proposto pelo filme sabota o xenomorfo: este mais é o caminho para o confronto com o real antagonista do que um real vilão, papel assumido nos primeiros filmes; é um obstáculo, perigo imediato, mas não o elemento motriz da ameaça. Nem mesmo o CGI do filme encarrega-se de tratar o ser como um velho e temido vilão recorrente no cinema e cultura pop, mais parecendo um inseto requebrando-se ao perseguir suas presas. O gore presente no filme não satisfaz; o tratamento é genérico demais, com direito, inclusive, à uma pudorosa sequência de morte dum casal no chuveiro.

Se narrativamente Alien: Covenant desaponta, visualmente, cansa – afinal, tanta escuridão ao longo de todo o filme não contribui para construção e amplificação de sua atmosfera soturna ou que cause temor. Poucos planos são realmente aproveitados em prol da extensão visual de seu horror. Adotando inúmeros cortes entre sequências e uma câmera nervosa, o terror visual torna-se um emaranhado de breu e tremidão.

Incapaz de retomar as ideias antes apresentadas em Prometheus (toda a relação entre a criação dos humanos pelos Engenheiros é perdida e nada explicada neste, que serviria como extensão da discussão) e ofertando pouco como uma autêntica sequência (não cronológica) do primeiro filme, Alien: Covenant ressuscita uma das mais icônicas figuras do terror no cinema para um papel que qualquer figura antagônica do cinema contemporâneo do gênero desempenharia com o mesmo vigor e efetividade – sendo assim, insosso e descartável.

Nota do CD:
★☆☆☆☆

Sinopse: A caminho de uma planeta remoto no lado mais longínquo da galáxia, a tripulação da nave colonial Covenant descobre o que eles julgam ser um paraíso inexplorado. No entanto, é um mundo sombrio e perigoso, cujo único habitante é o sintético David (Michael Fassbender), sobrevivente da amaldiçoada expedição Prometheus.

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Ficção Científica
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Jack Paglen, Michael Green
Elenco: Amy Seimetz, Benjamin Rigby, Billy Crudup, Callie Hernandez, Carmen Ejogo, Danny McBride, Demián Bichir, Goran D. Kleut, Guy Pearce, James Franco, Jussie Smollett, Michael Fassbender, Noomi Rapace, Uli Latukefu
Produção: David Giler, Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Walter Hill
Fotografia: Dariusz Wolski
Montador: Pietro Scalia
Trilha Sonora: Jed Kurzel
Duração: 122 min.
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 11/05/2017 (Brasil)
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Brandywine Productions / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation
Classificação: 16 anos
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Categoria: Arthur Salles, Detalhando, Em Cartaz, Resenhas de Filmes, Terror

Sobre o autor ()

Formando em Direito, adentrou no mundo do Cinema ao descobrir O Poderoso Chefão numa antiga locadora. Ainda nutre uma enorme paixão por videogames, futebol (gremista sofredor) e o que mais o tempo (e paciência) permitir. Curitiba/PR.

Comentários (1)

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  1. snake disse:

    Eu não concordo com boa parte do review. o filme é assustador e tenso, esse alien é o mais assustador da franquia. tente ignorar a história que realmente tem falhas, e tente ver ele como um filme de terror e só. ele é emocionante, em várias cenas eu fiquei sem folego e com medo da criatura que é rápida e imprevisível. tudo bem que tem essas incoerências mas isso eu consegui relevar. talvez seja pq eu curto filme b e trash, essas coisas q vc comentou não me incomodaram em nada. ele como filme sozinho é muito cativante. acho meio forçação de barra cobrar que um filme de terror tenha uma história complexa e com muitas explicações, ele se liga ao prometheus, a nave do final do prometheus está lá, os engenheiros são mostrados, a shaw e o david apareceram. claro que faltou a explicação do pq os engenheiros queriam destruir os humanos entre outras coisas mas paciência. quem sabe numa sequência isso não é explicado? não se influênciem por esse review, assistam o filme, é muito divertido.

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