[Resenha/Crítica]: Mate-me Por Favor

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Mate-me Por Favor é mais uma produção nacional, que merece muitos elogios e destaque. A diretora, estreante, Anita Rocha da Silveira já pode ser considerada parte de uma geração de diretores talentosos e com coragem de arriscar, que estão promovendo a melhor safra que o Brasil já produziu. Só em 2016, estiveram em cartaz alguns filmes aclamados mundo afora como por exemplo: Boi NeonPara Minha Amada MortaMãe Só Há Uma e Aquarius. O grande desafio agora é conquistar o público brasileiro, que infelizmente, ainda prefere e se entrega apenas as comédias baratas e, por fazerem, desse tipo de filme, segundo plano, terminam ocasionando em uma limitadíssima exibição, com poucas salas de cinema dispondo do que seu país tem de melhor a oferecer.

Mate-me Por Favor entra em cartaz com os méritos de ter conquistado no ano passado os prêmios de Melhor Direção e Melhor Atriz no Festival do Rio e posso dizer que são prêmios muito justos, pois de tantos fatores positivos, considero os dois o mais marcantes da produção, que ainda foi premiada pela atuação de Valentina Herszage, em Veneza. Anita Rocha da Silveira encontra aqui desdobramentos incomuns e interessantes para, através de metáforas e uma linha de raciocínio extremamente coesa, apresentar os descobrimentos da adolescência, propondo uma viagem entre o fantasioso e a realidade. Um destaque importante da cenas de impacto ficam para o uso das cores, que promove força ao que está sendo visto com um jogo de camadas pautadas no vermelho, que remete tanto ao amor quanto ao sangue e a violência, como ao roxo que remete a morte.

Apesar de uma cena inicial um pouco desconcertada, que remete ao espectador algo extremamente comum do gênero de terror, Mate-me Por Favor, aos poucos, vai se desdobrando em uma película completamente fora desse padrão, que apresenta uma trajetória de construção e desconstrução de personagens, que se sobrepõe ao possível mistério de investigação de um serial killer, que está cometendo homicídios na região da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Confesso em momento algum ter ficado curioso para saber quem estava praticando os crimes, mas sim a todo instante interessado em ver como se comportariam as garotas diante de tudo aquilo que vinha ocorrendo. O final é bem triste, mas que condiz muito com essa geração, que faço parte. A sensação de falta de sentimento que assola a todos e como a morte já é tratada como algo comum são assuntos apresentados pelas meninas, que discursam sobre os assassinatos como se, ao invés de algo terrível, fosse algo instigante e interessante. Nada muito diferente daqueles que fizeram piada, por exemplo, sobre a fatídica morte do ator Domingos Montagner (Um Namorado Para Minha Mulher, De Onde Eu Te Vejo), que aconteceu de maneira trágica na semana passada.

Grande parte deste processo de desenvolvimento é apresentado no ambiente escolar, que é disposto de uma forma, que não estamos acostumados a ver. Por mais que estejam presentes os aspectos de sempre, como a descoberta sexual, a inquietação do auto descobrimento e as relações de amizade, percebe-se aqui um tom de ironia marcante, que chega a remeter a uma espécie de humor satírico, que faz questão de mostrar a bagunça que são as cantinas na hora do intervalo, as fofocas, brigas dos grupinhos de amizade e as disputas pelas paqueras, porém, tudo isso sob uma ótica de transformação, falta de perspectiva e morbidez. Nem mesmo o culto apresentado escapa desse tom adotado em Mate-me Por Favor, sendo tratado de uma forma que é impossível se levar, completamente, a sério e incluindo em suas homílias canções religiosas ao ritmo de funk para atrair aos jovens, que até acreditam nos está sendo lhes ensinado, mas que sempre terminam cedendo ao pecado.

Diferente, essa é a palavra que melhor se enquadra a Mate-me Por Favor. Após conferir a sessão, algum tempo gastei debatendo sobre ele e as diversas mensagens, que ele aborda. Realmente são muitas e a riqueza está nos pequenos detalhes, como, por exemplo, a notável ausência dos adultos na vida dos jovens. Não há a imagem de um sequer durante toda a película, com eles sendo apenas citados. Não é mera situação do acaso! Além disso, a cena final impressiona por sua frieza, mas machuca com seu realismo. Estamos realmente vivendo um mundo mórbido, frio e assustador.

Termino reafirmando, que há no momento uma grande safra de produções brasileiras.

Nota do CD:
★★★★☆

Sinopse: Uma onde de assassinatos invade a Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. O fato atrai a curiosidade dos jovens habitantes do bairro, em especial de Bia, que após quase se tornar mais uma das vítimas, faz de tudo para provar que ainda está viva.

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Suspense
Direção: Anita Rocha da Silveira
Roteiro: Anita Rocha da Silveira
Elenco: Antara Morri, Bernardo Marinho, Dora Freind, Gabriel Lara, Julia Roliz, Laryssa Ayres, Lorena Comparato, Mariana Oliveira, Matheus Malafaia, Rita Pauls, Valentina Herszage, Vicente Conde
Produção: Vania Catani
Fotografia: João Atala
Montador: Marilia Moraes
Trilha Sonora: Bernardo Uzeda
Duração: 101 min.
Ano: 2015
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 15/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Bananeira Filmes / Fado Filmes / Rei Cine

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Categoria: Detalhando, Em Cartaz, Nacional, Resenhas de Filmes, Terror, Tiago Britto

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