[Resenha/Crítica]: Mate-me Por Favor (Crítica 2)

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O fascínio do jovem pelo desconhecido. Ou a morte pode estar ao seu lado.

O Brasil nunca teve uma fase de produção tão distinta e tão eficaz. Ninguém mais pode falar que não vê cinema brasileiro, pois ele está abraçando todas as vertentes possíveis. E nesse ano, o país do futebol virou o do audiovisual também. Ainda nem acabou o ano e já tivemos filmes de níveis altíssimos. Comédia, drama, suspense, ação… Tem história para todos os públicos. Já tivemos o mundialmente conhecido Aquarius, juntamente com sua polêmica. O virtuosismo de Mais Forte Que o Mundo. A bonita e seca fotografia de Reza a Lenda. O tocante Mãe Só Há Uma. O engraçado O Roubo da Taça. O belo documentário Menino 23 . Um casamento desfeito em De Onde Eu Te Vejo. O vingativo suspense de Para Minha Amada Morta. Tivemos a volta do diretor Neville D´Almeida , com o pulsante A Frente Fria Que a Chuva Traz. O Boi Neon chegou quebrando paradigmas do sexo. O Big Jato  amansou o coração de Cláudio Assis (Tatuagem). E agora a estreia do drama existencialista Mate-me Por Favor. O Brasil está percebendo que existe público sedento por ficção, realidade, crônica ou uma boa história pra se ver. Não importa o estilo, mas, sim, a qualidade. Basta haver identificação. É o cinema brasileiro na sua melhor fase de produção.

Mate-me Por Favor conta a história de Bia, 15 anos, que mora com seu irmão na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Perto dali estão acontecendo vários assassinatos. Bia e suas amigas de escola ficam fascinadas pelas mortes.

O filme bebe da fonte de vários outros. Percebe-se um tanto de David Linch, de Sophia Coppola (O Poderoso Chefão Parte 3 ), de Gus Van Sant (Gênio Indomável) e até do estiloso filme Donnie Darko. Mas Anita Rocha da Silveira, a diretora, não copia outros, ela tem o próprio poder nas mãos, trazendo um filão que, se bem trabalhado, pode ir bem longe, com um tipo de psicologia que fascina dos menores aos maiores, e ainda retratando a juventude, que muitas vezes fica no esquecimento ou na superficialidade. Esses mesmos jovens que estão em momentos de descobertas, com desejos reprimidos, grandes anseios, medo do desconhecido e fracassos que parecem não ter fim. Estão no mundo, mas estão sozinhos. A internet ainda parece ser o que lhes dá certo alento, assim estão acompanhados, mesmo que momentâneo. Mas é momento que sentem que podem tudo. O poder de nada. A morte e a violência cada vez mais banal. Morre um, dois, três e é só mais um. Ao mesmo tempo em que a morte se torna nada, ela toma proporção gigantesca de fascínio pela violência, pelo sangue, pelo desconhecido.

Mate-me Por Favor é filme sobre jovens, mas poderia ser sobre velhos, homens, mulheres, pois o buscar se estabelecer é universal. Quem está no centro são os jovens. Estão em ebulição. E a diretora conduz tudo com grande maestria. Em seu primeiro longa, ela traz uma carga gigantesca de simbologia com e sobre a juventude. Pessoas morrem, pessoas matam, pessoas têm fé. Tudo se mistura e aos poucos percebe-se que não há culpados, ou melhor, todos são culpados. Não há vilão nem mocinho. O mocinho e o vilão estão em nós. Ali vamos conhecendo Bia e o mundo em que ela vive. Seja com seu irmão que não sai do mundo virtual, ou de sua mãe que não aparece. O namoradinho evangélico que não deseja “pecar”, ou a jovem pastora funkeada que agrega jovens para a sua religião alto astral. Ou a sua sexualidade que está cada vez mais aflorada, ou os seus machucados do corpo e da alma. Ou até os versos de Augusto dos Anjos “acostuma-te à lama que te espera, o homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente necessidade de também ser fera”. E os adultos? Por onde andam? Eles já não existem mais. Bia precisa se encontrar sem a ajuda de ninguém. Ela está sozinha e não quer companhia. E a morte vai chegando. Aos poucos ela toma forma e se apodera de sentimentos. A morte pode não representar nada ou pode ser um turbilhão de emoções, depende do seu ponto de vista.

O elenco, em sua maioria, é de jovens atores sem experiências e Bia,  vivida por Valentina Herszage, sobressai com seu olhar enigmático, de menina, mas forte, como se quisesse tomar conta de todos, com sua sutileza de mulher, precisa assumir posição, mas não sabe qual posição. A garota tem uma presença descomunal, vívida, porém com olhar perdido e agressivo.

Mate-me Por Favor talvez não consiga encontrar muitos devotos em sua narrativa com tantos símbolos, alegorias e estética apurada, mas o seu clima, a sua plasticidade e o seu sentimento de urgência comprovam que o cinema brasileiro ainda tem muito o que mostrar e, se de tempos em tempos surgir uma diretora como  Anita Rocha da Silveira, o mundo só terá a ganhar com a nova Sofia Coppola David Lynchiana. Estamos em amargura, em transe, em agonia, em aflição, em melancolia… E tudo isso é puro cinema.

Nota do CD:

★★★★½

Sinopse: Uma onde de assassinatos invade a Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. O fato atrai a curiosidade dos jovens habitantes do bairro, em especial de Bia, que após quase se tornar mais uma das vítimas, faz de tudo para provar que ainda está viva.

Trailer do Filme:

Ficha Técnica:
Gênero: Suspense
Direção: Anita Rocha da Silveira
Roteiro: Anita Rocha da Silveira
Elenco: Antara Morri, Bernardo Marinho, Dora Freind, Gabriel Lara, Julia Roliz, Laryssa Ayres, Lorena Comparato, Mariana Oliveira, Matheus Malafaia, Rita Pauls, Valentina Herszage, Vicente Conde
Produção: Vania Catani
Fotografia: João Atala
Montador: Marilia Moraes
Trilha Sonora: Bernardo Uzeda
Duração: 101 min.
Ano: 2015
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 15/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Bananeira Filmes / Fado Filmes / Rei Cine

 

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Categoria: Detalhando, Em Cartaz, Nacional, Resenhas de Filmes, Terror, Vavá Pereira

Sobre o autor ()

Um publicitário que ama os filmes desde que nasceu. De Closer a O Senhor dos Anéis, de Uma Linda Mulher a O Poderoso Chefão. Sim, eu amo Julia Roberts! Gosto de quem gosta dos filmes que gosto, mas gosto mais ainda de quem não gosta, pois uma boa discussão não faz mal a ninguém.

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