[Resenha/Crítica]: Deserto

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Uma ode aos primórdios da arte, da vida, da essência.

Um lugar seco. Um lugar frio. Um lugar cansado. Uma trupe de arteiros de oito pessoas. Duas mulheres, um homem pequeno, um homem grande, três velhos e uma menina. Eles procuram lugar para fazer arte e, principalmente, público para ela. Ao chegar a um vilarejo, percebem que ali poderá ser o novo local para trabalho e para viver também. Ali, parece que não existe público nem crítica. Poderão viver como é permitido. Agora, nesse novo ambiente, decidem viver vidas que não viveram, cada um desempenhando papel que jamais poderiam imaginar que estariam em suas entranhas.

Naquela pequena comunidade, em meio à secura do lugar, querem mostrar a sua arte. Mas ali não existem pessoas para os verem. Foram embora, secaram. E a maior dor do artista é ter a arte e não ter a quem mostrar. Os artistas não sabem viver assim. Eles têm muitas vidas para dar.

O ator Lima Duarte (Assalto ao Banco Central) é o mais conhecido do elenco, e no meio de tantos trabalhos já feitos, tem uma de suas melhores performances, quiçá a melhor, e com um monólogo sobre a velhice que jamais será esquecida. Magali Biff e Cida Moreira também estraçalham tudo em cena. São atrizes que desmontam qualquer traço de obviedade. Aliás, o filme pode trazer tudo, menos obviedade.

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E em Deserto todos são protagonistas. Cada um deles tem o seu momento. Um brilha e o outro rebate. É um elenco que ninguém destoa, ninguém é mais ou menos, todos são gigantes em seu caminhar naquela fotografia semiárida, sem vida e sem rumo. Com grandes surpresas e descobertas, Deserto é a pura melancolia de um Brasil que já foi descoberto, transformado em poesia dura, arredia e ferozmente catártica. E como bem disse o cineasta e crítico de cinema Maurício Costa, Deserto é quase um O Auto da Compadecida  dirigido por Lars Von Trier (Ninfomaníaca: Volume I)e que não está tão longe.

O primeiro trabalho do ator Guilherme Weber  como diretor é um assombro de qualidades estéticas e morais. Um ambiente inóspito, ele viaja, para e reflete tudo o que já sabemos ou não queremos saber do nosso país. Um país com conceitos e pré-conceitos que todos já estão familiarizados ou, de certa forma, se tornaram vítimas. Onde artistas lutam pela arte, mas a arte vai se esvaindo, como água que escorre pelo ralo, e água essa, que falta para matar a sede. O que tem é seca. Secura de emoções que precisam ser explicitadas, mas quando explicitadas, talvez não sejam bem-vindas. Uma quase família, uma quase comunidade que está devastada pela solidão de seus desejos, de suas vidas, de suas memórias, de sua vontade de ganhar a vida e a vida lhe ganhar. E Guilherme Weber é quem dá as cores de toda essa jornada, com roteiro seu e da romancista Ana Paula Maia. Nada melhor do que um ator que veio do teatro e que tem como filme favorito E O Vento Levou, conduzir o Deserto de atores que querem vidas, nem que sejam vidas alheias, mas vidas que tenham alguma emoção para extravasar, com grosserias, xingamentos, animosidades e trazendo o caráter que estava escondido, esperando a chance para dar o bote.

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Com a teatralidade sendo inserida no cinema de forma tão magistral, juntando as duas vertentes em uma, sendo o melhor casamento cinema-teatro já concebido no cinema brasileiro atual, Weber coloca o racismo, a velhice, a mulher, a religião e o poder numa mesma caixa cênica e tudo isso vai se entrelaçando com certa graça, certo rancor, certa maldade, certo cinismo, certa hipocrisia, certo desrespeito e certa voluptuosidade até se tornar minimalistamente gigante e perfeito em sua condução, transformando vidas em morte e mortes em vida. E como bem disse o poeta “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Deserto é Guilherme Weber na maestria da essência da arte.

Ainda sem data de estreia, fique de olho em Deserto, um cinema de alta qualidade.

Nota do CD:

★★★★★

Sinopse: Um pequeno grupo de artistas viaja pelo sertão brasileiro apresentando um espetáculo. Ao chegar num pequeno vilarejo, descobre uma cidade abandonada, casas, igreja e uma fonte que jorra água limpa, tal qual milagre de um deserto bíblico. Cansados e combalidos da vida errante, os artistas decidem se instalar no vilarejo e fundar uma nova comunidade, dando a si mesmos papéis diferentes daqueles que exerceram por toda a vida. Esta nova configuração, entretanto, vai revelar a estes artistas os piores vícios da vida civil. Livremente inspirado na obra Santa Maria do Circo, de David Toscana.

Ficha Técnica:
Roteiro: Guilherme Weber e Ana Paula Maia
Produtora: Vania Catani
Produção executiva: Lili Nogueira
Assistente de direção: Kity Féo
Diretor de produção: Henrique Castelo Branco
Fotografia: Rui Poças
Montagem: Ricardo Pretti
Som: Jose Moreau Louzeiro
Direção de arte: Renata Pinheiro
Cenografia: Karen Araújo
Figurino: Kika Lopes
Caracterização: Marlene Moura
Trilha sonora e música origina:l Luiz A. Ferreira e Rodrigo Barros Del Rei
Finalização: Juca Díaz
Produtora: Bananeira Filmes
Coprodução: Canal Brasil, Mutuca Filmes
Produtora associada: ParaTodos Produções
Distribuição: Tucuman Filmes

 

 

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Sobre o autor ()

Um publicitário que ama os filmes desde que nasceu. De Closer a O Senhor dos Anéis, de Uma Linda Mulher a O Poderoso Chefão. Sim, eu amo Julia Roberts! Gosto de quem gosta dos filmes que gosto, mas gosto mais ainda de quem não gosta, pois uma boa discussão não faz mal a ninguém.

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