Resenha de Filme: Quarteto Fantástico

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Josh Trank comanda o reboot que mostra, de novo ,e mais uma vez, o começo da jornada do herói, ou melhor, do grupo de heróis

CUIDADO, SPOILERS!

As adaptações baseadas em HQs estão há mais de uma década invadindo o universo cinematográfico. Nesse período, pode-se ver um leque de tentativas bem e mal sucedidas e que criaram um mercado competitivo na área. Dentro desse mercado bilionário, está a Fox, estúdio que detém os direitos de quadrinhos da Marvel como X-men, Deadpool e o próprio Quarteto Fantástico. O clima de disputa nas bilheterias é intenso e a Marvel parou de circular a revistinha do Quarteto como represália pois a Fox não quis nem dar, nem compartilhar os direitos. É nessa onda tensa e competitiva que os longas que saem dos quadrinhos estão sendo lançados, ou seja, é muita pressão para se fazer obras originais, que empolguem os fãs e que consigam superar a então hegemonia da Marvel Studios. O reboot de Quarteto Fantástico traz essa sensação de que a Fox e a equipe envolvida tinha uma grande pressão, a de agradar, reconquistar e cativar o espectador.

O longa conta, como Reed Richards (Sr. Fantástico), tinha um sonho ainda criança, o de criar uma máquina capaz de realizar o teletransporte de seres vivos, e passa a infância, junto com seu fiel escudeiro, Ben Grimm (Coisa), tentando chegar em seu objetivo. Sete anos depois, numa feira de ciências de sua escola, mostra seu êxito ao investidor Dr. Franklin Storm (Reg E. Cathey) que lhe dá uma bolsa para construir o projeto de teletransporte, que já era pesquisado anteriormente, sem tanto sucesso quanto o experimento de Richards. Então, junto com os filhos de Storm, Sue (Mulher Invisível) e Johnny (Tocha Humana) e de Victor Von Doom (Dr. Destino), constroem a máquina de teletransporte. A história contada no filme, ao contrário da versão anterior, é mais fiel ao início da saga do Quarteto nas revistinhas, ainda que existam diferenças entre os dois.

O que vemos nesse longa é mais do que simplesmente uma obra de heróis cheia de ação , lutas e peripécias. Simon Kinberg, roteirista de X-men – Dias de um futuro esquecido e X-men: O confronto final, junto com Jeremy Slater e Josh Tank (também diretor), apostam mais num misto de ficção científica e drama familiar. Explosões e saltos dão lugar aos conflitos internos e aprofundamento das personagens, criando personalidades bem desenvolvidas para os protagonistas. Todos eles, exceto Ben Grimm. O coisa não tem características bem delineadas, sabe-se somente que a família dele tem um ferro velho, mas isso não serve para quase nada trama, e que ele é o melhor amigo de Richards. Fora isso, não fica muito bem explicado como Johnny Storm é necessário para soldar e construir coisas e Grimm, que sabe fazer o mesmo e participou a infância inteiro do projeto de Reed, fica fora da pesquisa. Para conseguir que ele partisse com o resto das personagens para a missão que os transformaria nos fantásticos heróis, Kinberg opta por uma solução muito fraca e repentina. Quando Richards, Doom e Johnny decidem ir para a dimensão desconhecida, estão bêbados e, por isso, Richards liga para seu amigo e diz que não pode ir sem ele. Totalmente repentino, sem melhores razões, parece somente uma desculpa propícia.

Dentro dessa humanização e aprofundamento psicológico, vê-se também outros pontos bem construídos e conectados. A relação do casal de irmãos Storm com o pai é bem definida e explicada, além de ser colocado sutilmente que o fato de Sue ser adotada a fez buscar ser mais perfeita, mais conectada com seu pai e respeitando mais o que ele pensava. Já Johnny, foge do que é ser um Storm e procura sair do campo das pesquisas científicas e do campo de atuação de seu progenitor. Outro ponto bem pontuado na trama é o papel de Victor na vida de Franklin e como o empresário apostou e continua apostando em seus pupilos cegamente e como ele não desiste deles. É a crença de Franklin que move a história para frente até o acidente que torna as personagens detenedoras de poderes incríveis, e isso demora de acontecer, destacando novamente o teor de drama familiar dado à obra. Tudo isso é colocado sem subestimar o espectador, muitas vezes deixado como pista para ser entendida e interpretada.

Mais da metade do filme é dedicada a todos esses fatores que definem a trajetória e caráter das personagens e até onde o longa aposta nesse drama familiar há um nível alto de qualidade. Contudo, a partir dos últimos trinta minutos de história, parece que há pressa em correr para final e não deixar a obra muito longa, cativando ainda mais o espectador. Contudo, o que ocorre é uma explicação repentina e mal desenvolvida para definir como as personagens lidaram com sua nova realidade. Tudo acontece velozmente. Eles ganham os poderes, aprendem a lidar com eles, lutam com Victor, ganham e acaba o conflito. Por mais corajoso que tenha sido, a passagem de tempo de um ano, parece mais uma forma para desculpar a velocidade dos fatos ocorridos no final do que de fato uma ferramenta narrativa. O ponto positivo dessa parte do longa, ainda que não seja destrinchado com paciência, está na maneira como são tratados os poderes de cada um, eles não sentem como dádivas e sim como uma consequência fisiológica que modificou a vida de cada um para pior. Não há glamourização dos super poderes, somente a tentativa de lidar com os mesmos e levar a vida adiante até superá-los.

O último ato do filme é recheado de pressa e parece ter muito mais a mão do estúdio do que de Trank. Os poderes são colocados na luta com Doom de maneira sem graça e o vilão aparece, mais uma vez, de maneira caricatural. Não fica claro como Reed Richards, ainda que o espectador saiba que ele tem poderes e ficou sozinho fugindo durante um ano, aprendeu a lutar e modificou sua personalidade de nerd pacato para líder do Quarteto. Toda a construção feita durante mais da metade do longa é desperdiçada numa luta previsível, sem graça e que traz outra vez um buraco que puxa e suga coisas da Terra. Os atores, que até então estavam com um ótimo desempenho, até porque a produção acertou em cheio na escolha dos intérpretes, parecem não saber ao certo o que estão fazendo, não lidam bem com o interpretar para uma pós -produção de efeitos especiais. Principalmente Kate Mara que faz caras e bocas, pouco convincentes, para mostrar que está usando seus poderes.

O humor do roteiro é usado de maneira certeira. Ao contrário da Marvel, que já exauriu seu público entupindo seus filmes de piadinhas que até cortam o ritmo da trama, em Quarteto vemos momentos pontuais, muito bem pensados, piadas curtas e inteligentes que apimentam o desenvolver da história sem atropelar a mesma. Além disso, fora a aparente falta de ensaio para lidar com efeitos especiais, vê-se um elenco muito bem entrosado e com muita química, com destaque para Miles Teller (Whiplash). o ator não exagera nas expressões e não foge para o nerd clichê e sim procura camadas em sua interpretação para trazer um jovem gênio que não consegue pensar em outra coisa em sua vida senão na realização do seu sonho de infância. O lado geek atrapalhado surge com naturalidade a partir das tentativas de chegar em seu objetivo. Kate Mara (House of Cards) e Jamie Bell (Ninfomaníaca) defendem com dignidade suas personagens, crescendo mais e saindo de suas carcaças clichês no momento em que se veem presos com poderes que não desejavam. Michael B. Jordan (Fuirtvale Station) é o alívio cômico e traz um Johnny mais complexo, ainda que em sua comicidade.

Apesar dos tropeços de Quarteto Fantástico, há um grande mérito da Fox e de todos envolvidos no projeto, há dignidade no filme, uma proposta mais madura e menos estúpida do que a adaptação anterior (não que seja difícil), que maculou a franquia por um bom tempo. O reboot traz uma construção bacana que pode trazer para a (ou as) continuação (ões) muito o que se desenvolver. Podemos perceber uma forma original de se fazer um filme adaptado de HQ, não há, como temido por muitos, uma tentativa de cópia da fórmula, já batida, da Marvel e isso já é um grande mérito, trazer algo de novo para universo dos super heróis no cinema. Contudo, não há também uma maturidade menos PG-13 que existe nos X-men. O interessante agora é esperar pelo resto da franquia e ver que bons frutos pode surgir dela.

Nota do CD:
[rating:3.0/5]
Nota dos Leitores:
[kkstarratings]

TRAILER:

FICHA TÉCNICA
Título no Brasil: Quarteto Fantástico
Título Original: Fantastic Four
Ano de Lançamento: 2015
Gênero: Ação / Aventura / Ficção
País de Origem: EUA
Duração: 100 minutos
Direção: Josh Trank
Estreia no Brasil: 06/08/2015
Estúdio/Distribuidora: Fox Filmes
Elenco: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Tim Heidecker, Mary Rachel Dudley, Mary-Pat Green, Chet Hanks, Owen Judge, Evan Hannemann e Dan Castellaneta.

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Categoria: Ação, Aventura, Ficção, Heróis, Hilda Lopes Pontes, Resenhas de Filmes

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